domingo, 3 de julho de 2011

Argumentação formal

Proposição

A proposição deve ser clara, definida, incon¬fundível quanto ao que afirma ou nega. Além disso, é indispensável que seja... argumentável, quer dizer, não pode ser uma ver¬dade universal, indiscutível, incontestável. Não se pode argumen¬tar com idéias a respeito das quais todos, absolutamente todos, es¬tão de acordo. Quem discutiria a declaração ou proposição de que o homem é mortal ou um ser vivo? Quem discutiria o valor ou a im¬portância da educação na vida moderna? Se argumentar é conven¬cer pela evidência, pela apresentação de razões, seria inútil tentar convencer-nos daquilo de que já estamos... convencidos. Argu¬mentação implica, assim, antes de mais nada, divergência de opinião. Isto leva a crer que as questões técnicas fogem à argumen¬tação, desde que os fatos (experiências, pesquisas) já tenham provado a verdade da tese, doutrina ou princípio. Fatos não se dis¬cutem.
Por outro lado, a proposição deve ser, de preferência, afir¬mativa e suficientemente específica para permitir uma tomada de posição contra ou a favor. Como argumentar a respeito de gene¬ralidades tais como a previdência social, a propaganda, a democracia, a caridade, a liberdade? Proposições vagas ou inespecíficas que não permitam tomada de posição só admitem disser¬tação, explanação ou interpretação. Para submetê-las à argumentação é necessário delimitá-las e apresentá-las em termos de opção: previdência social, sim, mas em que sentido? Trata-se de Kostrar a sua importância? Quem o contestaria? Trata-se de as¬sinalar as suas falhas ou virtudes em determinado instante e lugar? Sim? Então, é possível argumentar, pois deve haver quem discorde da existência de umas ou de outras. Nesse caso, a proposição poderá configurar-se como: Porque a Previdência Social oferece ou não) aos trabalhadores toda a assistência que dela se deve esperar ou Deficiências da assistência médica prestada pelo Instituto t no ano tal no Estado tal.  Posta em termos semelhantes, a proposição torna-se argumentável, já que admite divergências de opiniões.


Análise da proposição

A análise da proposição constitui o estágio da maior importância. Antes de começar a discutir é indispensável definir com clareza o sentido da proposição ou alguns dos seus termos a fim de evitar mal-entendidos, a fim de pedir que o debate se torne estéril ou inútil, sem possibilidade de conclusão: os opositores, por atribuírem a determinada palavra ou expressão sentido diverso, podem estar de acordo desde o início, sem o saberem. Urge, portanto, definir com precisão o sentido das palavras.
Se a proposição é, por exemplo, "A democracia é o único regime político que respeita a liberdade do indivíduo", tor¬na-se talvez necessário conceituar ou definir primeiro, pelo menos, "democracia" e "liberdade", palavras de sentido intencional, vago, abstrato, e por isso sujeitas ao malabarismo das múltiplas in¬terpretações.
Além da definição dos termos, importa que o autor ou orador defina também, logo de saída, a sua posição de maneira ine¬quívoca, que declare, em suma, o que pretende provar.


Formulação dos argumentos

A formulação dos argumentos constitui a argumentação propriamente dita: é aquele estágio em que o autor apresenta as provas ou razões, o suporte das suas ideias. Ê aí que a coerência do raciocínio mais se impõe. O autor deve lembrar-se de que só os fatos provam (fatos no sentido mais amplo: exemplos, estatísticas, ilustrações, comparações, descrições, narrações), desde que apresentem aquelas condições de quantidade suficiente (enu¬meração perfeita ou completa), fidedignidade, autenticidade, relevância e adequação.
Além disso, é de suma importância a ordem em que as provas são apresentadas; o autor deve escolher a que melhor se ajuste à natureza da sua tese, a que seja mais capaz de impressionar o leitor ou ouvinte. Quase sempre, entretanto, ao contrário do que se faz na refutação, adota-se a ordem gradativa crescente ou climática, isto é, aquela em que se parte das provas mais frágeis para as mais fortes, mais irrefutáveis.
Outro recurso de convicção consiste em manter o leitor como que em suspense quanto às conclusões, até um ponto de saturação tal, que, várias vezes iminentes, mas não declaradas, elas acabem impondo-se por si mesmas: esse é o momento de enunciá-las. Mas deve lembrar-se da paciência e da resistência da atenção do leitor para não cansá-lo nem exasperá-lo, mantendo-o por tempo de¬masiado na expectativa da conclusão.
Existem ainda outros artifícios de que o argumentador pode servir-se para convencer, para influenciar o leitor ou ouvinte.
Muitos são comuns também à dissertação: confrontos fla¬grantes, comparações adequadas e elucidativas, testemunho autorizado, alusões históricas pertinentes, e até mesmo anedotas.
Por fim, cabe ainda lembrar dois outros fatores relevantes. O primeiro diz respeito à conveniência de o autor frisar, nas ocasiões oportunas, os pontos principais da sua tese, pontos que ele, sem dúvida, englobará na conclusão final, de maneira tanto quanto possível enfática, se bem que sucintamente. O segundo refere-se à necessidade de se anteciparem ou se preverem possíveis objeções do leitor, para refutá-las a seu tempo.


Conclusão

A conclusão "brota" naturalmente das provas arroladas, dos argumentos apresentados. Sendo um arremate, ela não é, entretanto, uma simples recapitulação ou mero resumo: em síntese, consiste em pôr em termos claros, insofismáveis, a essência da proposição.

Um comentário:

  1. Adorei o conteúdo do blog. Utilizadade para todos os amantes da nossa rica e "escorregadia" língua. Parabéns!
    Grande abraço, Leo Nunes.

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